terça-feira, 6 de outubro de 2020

Dei a este conto o título de "O AMANHÃ" que também é o nome de uma bela música de Didi e João Sérgio, gravada por Simone e outros cantores. Entenda o motivo ouvindo a música aqui: https://www.vagalume.com.br/simone/o-amanha.html (clique com o botão da direita e depois em abrir link em uma nova guia, depois volte para esta guia)

O AMANHÃ

O destino é um bobo da corte que manipula os homens como se marionetes fossem, levando-os aos mais trágicos e desnecessários desfechos em suas miseráveis vidas. 

             Osvaldo acordou molhado em suor, apesar do frio naquela noite de inverno. Levantou antes do sol aparecer e foi direto para o computador. Tinha tido um pesadelo. Nele, um vento fortíssimo o impedia de andar e, por mais que tentasse, acabava dando um passo para frente e dois para trás.  Se sentia estranho.

              E mais estranha foi a mensagem que recebeu de Paula no e-mail.

“Venha para cá assim que ler essa mensagem. Rogério não vai voltar hoje. Preciso falar com você. Cordialmente, Paula.” 

              Aquelas palavras aumentaram o arrepio que ainda sentia. Não era comum que Paula mandasse e-mails. Mas já tinha acontecido outras vezes.

              Rogério era seu amigo desde garoto e pertencia à família mais rica da cidade. Moravam na mesma rua. Uma casa em cada esquina. Osvaldo só morava naquele bairro porque seu pai era caseiro de outro ricaço. No entanto, apesar da diferença de classe social, sempre se divertiram juntos no ambiente neutro que era a rua pacata, onde jogavam bola, rodavam pião e soltavam pipa.

              Como era de se esperar, Rogério se formou na melhor escola de administração de negócios do país. E assumiu as empresas do pai. Osvaldo conseguiu, estudando à noite e trabalhando durante o dia, se formar na faculdade de contabilidade. Rogério fez MBA nos EUA. Osvaldo se lançou ao mercado de trabalho.

                 E continuaram amigos. Tanto que Rogério chamou Osvaldo para trabalhar em uma das suas empresas. Com o tempo, Osvaldo provou ser muito competente e ainda mais, muito leal. Progrediu e se tornou chefe do setor financeiro. Agora não apenas de uma empresa, mas de toda a holding de Rogério. E se tornou o braço direito do CEO.

                  Um bom salário, uma vida melhor, mas na vida amorosa, Osvaldo, já aos 40 anos, se mostrava sem apetite. Rogério lhe aconselhava a buscar uma mulher para dividir as alegrias e agruras. Alguém que lhe desse cuidados e filhos. Mas esses conselhos era um daqueles “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. O rico era mulherengo e volúvel. Gostava de desfilar nas boates com uma beldade por fim de semana.

                  Até que surgiu Paula. Rogério a conheceu em uma de suas muitas viagens à Europa. Moça culta, de família abastada, doze anos mais nova que ele e de uma beleza avassaladora. Pele muito alva, longos cabelos negros, e olhos tão azuis que penetravam os espíritos mais empedernidos. Apaixonou-se perdidamente.

                  Logo que voltaram ao Brasil, Rogério chamou Osvaldo e, revelando como estava encantado, anunciou sua decisão de casar-se com Paula. E o chamou para padrinho.

                  Enquanto o tempo passava, o sentimento de gratidão que Osvaldo tinha por Rogério se estendeu em direção a Paula. E ela sempre fez questão de honrar aquela amizade, tratando Osvaldo como um irmão de seu marido.

                   Como ônus por ser presidente das empresas, Rogério tinha que se ausentar constantemente em viagens ao exterior. Deixava Osvaldo responsável por cuidar da casa e atender as necessidades domésticas de Paula. E ele, ainda que com certo constrangimento, cumpria sua missão com eficiência.

                 Osvaldo ia à mansão de Rogério todos os dias. Pagava as contas e dava ordens aos empregados. Se ficasse sabendo que Paula precisasse de algo, providenciava imediatamente. Já era assim há dois anos.

                 Tanta proximidade acabou fazendo germinar um amor tão forte em Osvaldo que ele não conseguiu esconder. Numa das muitas ausências de Rogério, sem conseguir conter os sentimentos, Osvaldo revelou a Paula sua paixão. E soube que era correspondido.

                  Desde então, mantinham em segredo seus encontros apaixonados. Mas a culpa corroía a ambos. Muitas vezes falaram em revelar tudo e viver plenamente seu imenso amor. Porém, Osvaldo não via como fazer isso sem ferir de morte a amizade que já durava quase trinta anos. E sua culpa era incrementada pela imensa gratidão e dívida que sentia que tinha com Rogério.

                   Por isso, ao receber aquele e-mail, Oswaldo resolveu sair logo de manhã ao encontro de sua amada. Chamou um carro pelo aplicativo e se encaminhou para o bairro elegante onde ficava a mansão do casal. E no caminho pensava na mensagem que recebera dela.

                   Angustiante. Este foi o adjetivo que deu à  mensagem. Revelava uma urgência. As poucas palavras plantaram uma sensação de receio em Osvaldo. Mas, de resto, o código que combinaram estava ali. Ela sempre assinaria as mensagens com um “cordialmente” antes da assinatura. Esta providência daria um certo tom de formalidade e, assim, quem lesse suas comunicações, não desconfiaria da existência de qualquer intimidade maior entre eles. Declarações de amor somente eram feitas ao vivo ou, muito raramente, por mensagens privadas no aplicativo, criptografadas de ponta a ponta. Osvaldo sabia que existia risco em tudo isso. E se culpava. Porém sua paixão era maior e mais avassaladora.

                 Naquele momento, seu pensamento corria em círculos e, enquanto o carro avançava, ele se irritava com os buracos do caminho que o faziam sacolejar e seu desconforto o trazia de volta à mesma agoniada apreensão.

                  E se Rogério descobriu tudo? E se a o caso de amor deles veio à tona? O caldo agora já poderia ter entornado...

                  Mais o uber se aproximava da mansão, mais seu coração apertava.

                  Num rompante, Osvaldo determinou: - Pare aqui! Encoste!

                  O motorista freou bruscamente.

                  Osvaldo desceu do carro: - Espere aqui. Te dou cinquentinha por fora. Volto logo.

                 O letreiro discreto no muro daquela casa velha, quase em ruínas, colheu os olhos de Osvaldo que, num reflexo medular, mandou que o carro interrompesse o seu curso. E Osvaldo adentrou o portão que rangeu enferrujado.

                  Postou-se perante a porta descascada e bateu suavemente três vezes rápidas. Como alguém demorasse a atender e ele já pensasse em sair dali, a porta se abriu.

                 Uma senhora de estatura muito baixa, parecendo ter uns setenta anos, cabelos brancos longos demais para uma senhora daquela idade, presos na nuca com um rabo de cavalo, o rosto bem enrugado e usando um vestido de chita colorida que ia até os tornozelos apareceu e nada disse.

                 Osvaldo respirou fundo e perguntou: - A senhora é a cigana Madalena que está no letreiro ali fora?

                 - Sim, Senhor. Leio o passado, descubro o presente e prevejo o futuro. Entre agora. Tenho exatamente o que veio buscar.

                  Com as pernas bambas e passos desconfiados, Osvaldo ultrapassou o umbral e viu um ambiente bem sinistro, com todas as janelas cobertas por cortinas vermelhas e algumas imagens de santos católicos espalhadas em prateleiras pelas paredes. Todas com uma vela acesa junto à base. Num canto da sala, havia uma pequena mesa redonda, coberta com uma toalha de tecido muito branco e sobre ela uma outra, de renda, que se estendia até o chão. No centro, uma bola que parecia ser de cristal sobre uma base preta. E duas cadeiras.

                - Sente-se. Sussurrou a cigana.

                Como um bom matemático, Osvaldo sempre fora cético sobre o esoterismo. Nunca acreditara em adivinhações e horóscopos. Até da previsão do tempo desconfiava. Mas a sua enorme cisma agora o levou até aquela casa velha, naquela situação constrangedora.

                 A cigana Madalena se sentou na outra cadeira, fechou os olhos e pôs as mãos em concha sobre a bola.

                 - Vejo aqui que o senhor carrega grande apreensão.
                 Osvaldo arregalou os olhos. - Sim, mas...
                 - Shhhh! Murmurou a velha.
                 - O senhor a ama muito... e é correspondido.
                 As mãos de Osvaldo tremiam.
                 - Fique tranqüilo. As coisas estão em paz e sua vida seguirá com a felicidade bem próxima. E abriu os olhos.
               
                 Osvaldo levantou-se: - Ora. Obrigado, Senhora Madalena. Quanto devo?
               
               - Dê o que seu coração mandar.
             
                Osvaldo tirou uma nota de cem da carteira e deixou sobre a mesa.

                - Obrigada, meu nobre! Que sua alegria seja duradoura e sua felicidade seja eterna! Disse Madalena, já colocando a nota entre os seios.

                  Ao voltar pro carro, Osvaldo sentia a alma renovada. Sua respiração estava menos ofegante e seu coração batia mais calmo. Era incrível. Óbvio que tudo estava bem. Paula e ele tinham sido muito cuidadosos em manter tudo em segredo até agora e, certamente, isso não tinha mudado. Rogério estava viajando e avisou que não retornaria hoje. Ademais, o amor deles era tão intenso e tão bonito que todo o universo somente poderia conspirar positivamente para que aquilo desse certo. Revisitou a mensagem recebida em sua mente e, agora, nada via de anormal nela. Se sentiu tolo por achar que algo poderia estar errado e o balançar do veículo, que antes lhe era incômodo, agora lhe fez abrir um sorriso aliviado.

                  O carro chegou em frente ao portão da mansão. Pagou mais do que tinha prometido ao motorista e desceu. Usando as chaves que Rogério havia lhe dado, abriu e atravessou o jardim, pensando como tinha sido idiota por pensar tudo o que pensou. Foi diretamente para a porta dos fundos, como sempre fazia. Abriu a porta e entrou na casa. Não viu ninguém na cozinha. Chamou por ela, mas não houve resposta. Entrou na grande antessala.

                  Ali viu Paula. Deitada no tapete. Nua. Os intensos olhos azuis fitando Osvaldo. Braços alinhados e mãos abertas. As pernas dobradas junto ao corpo. Sobre uma enorme poça de sangue.

                 Então uma forte fisgada lhe rasgou as costas. Ouviu o estampido uma fração de segundo depois. Caiu de joelhos e depois de bruços. O rosto virado para Paula. Com o coração parando, Osvaldo ainda num último esforço virou-se e teve tempo de ver Rogério andando lentamente em sua direção com a pistola em punho. As feições transtornadas de ódio. Viu o buraco do cano da arma apontada para o seu olho esquerdo. Não ouviu o segundo estampido.

(Este texto é uma releitura contemporânea do conto "A Cartomante" de Machado de Assis)